terça-feira, setembro 8

estrangeiro, aquele que é diferente, que vem de um outro lugar, que não pertence a um grupo, a uma cidade, a uma família. aquele que não compartilha os mesmos signos, não é familiar, conhecido. estranho. era assim que se sentia.

(tiago elídio, sobre pierre seel)

segunda-feira, setembro 7

não espero nenhum olhar, não espero nenhum gesto, não espero nenhuma cantiga de ninar. por isso estou vivo. pela minha absoluta desesperança, meu coração bate ainda mais forte. quando não se tem mais nada a perder, só se tem a ganhar. quando se pára de pedir, a gente está pronto para começar a receber. o futuro é um abismo escuro, mas pouco importa onde terminará a minha queda. de qualquer forma, um dia seremos poeira. quem é você? quem sou eu? sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. você tem seus jeitos de tentar. eu tenho os meus.

(caio fernando abreu)

terça-feira, junho 23

o meu ponto distante na estrada
preso aos dias a gente daqui.
o meu tempo medido e atado
ao sol único de milhares manhãs.

tecemos juntos a mesma estampa
rumo ao auge que se foi despercebido.
onde todo abismo agora é raso
e todo choro agora é riso.

(thiago oliveira)

sábado, maio 30

há dias em que o coração sofre tão terrivelmente o beco sem saída, que apanha como uma pancada de cana na cabeça, a ideia de já não conseguir passar.

(artaud)

domingo, maio 10

(toulouse-lautrec)

"como se fora um coração postiço..."

(...)

mas o menino do coração fora do peito está se rindo. não responde nada. podia contar a sua história: "o dr. mereje disse que..." - mas não conta. está rindo, mas está triste. os anjinhos todos querem saber. então o menino diz:


- ora, pinhões! eu nasci com o coração fora do peito. queria que ele batesse ao ar livre, ao sol, à chuva. queria que ele batesse livre, bem na vista de toda a gente, dos homens, das moças. queria que ele vivesse à luz, ao vento, que batesse a descoberto, fora da prisão, da escuridão do peito. que batesse como uma rosa que o vento balança...

os anjinhos todos do limbo perguntaram:

- mas então, paulistinha do coração fora do peito, pra que é que você foi morrer?

o anjinho respondeu:

- eu vi que não tinha jeito. lá embaixo todo mundo carrega o coração dentro do peito. bem escondido, no escuro, com paletó, colete, camisa, pele, ossos, carne cobrindo. o coração trabalha sem ninguém ver. se ele ficar fora do peito é logo ferido e morto, não tem defesa.

(...)

(rubem braga)

segunda-feira, abril 27

to be nobody but yourself in a world which is doing its best, night and day, to make you everybody else, means to fight the hardest battle which any human being can fight, and never stop fighting.

(e. e. cummings)

quinta-feira, abril 23

segunda-feira, abril 13

impotência pacífica

da fachada já percebo, pelo sujeira posta em seu entorno posso prever o que me espera no interior. quando entro sinto o fedor de carne humana. podre, desgastada. o hall estreito tomado por vícios, mesquinhez. penso em voltar mas é tarde, não há retorno. subo as escadas largas e negras. em cada degrau escarros de inutilidade e fraqueza, cólera da ignorância. no quarto me sento entre as chagas do solo. acomodo-me cercada por quatro paredes sem janelas, por onde deslizam secreção, dor, desespero. a verdade nua, sem disfarces ou máscaras, bem diante de meus olhos. e por mais que eu queira modificá-la, fico estática, vendo a porta mofada lentamente se fechar.

domingo, abril 12

eu ainda queria ser próximo das pessoas. eu morava sempre com outras pessoas achando que podíamos nos tornar bons amigos e contar nossos problemas, mas acabava sempre descobrindo que eles só estavam interessados numa outra pessoa para repartir o aluguel. (...)
eu havia sido muito machucado, até o ponto em que só se pode ser machucado quando você se importa muito. então acho que eu me importava muito...

(andy warhol)