segunda-feira, abril 13

impotência pacífica

da fachada já percebo, pelo sujeira posta em seu entorno posso prever o que me espera no interior. quando entro sinto o fedor de carne humana. podre, desgastada. o hall estreito tomado por vícios, mesquinhez. penso em voltar mas é tarde, não há retorno. subo as escadas largas e negras. em cada degrau escarros de inutilidade e fraqueza, cólera da ignorância. no quarto me sento entre as chagas do solo. acomodo-me cercada por quatro paredes sem janelas, por onde deslizam secreção, dor, desespero. a verdade nua, sem disfarces ou máscaras, bem diante de meus olhos. e por mais que eu queira modificá-la, fico estática, vendo a porta mofada lentamente se fechar.

domingo, abril 12

eu ainda queria ser próximo das pessoas. eu morava sempre com outras pessoas achando que podíamos nos tornar bons amigos e contar nossos problemas, mas acabava sempre descobrindo que eles só estavam interessados numa outra pessoa para repartir o aluguel. (...)
eu havia sido muito machucado, até o ponto em que só se pode ser machucado quando você se importa muito. então acho que eu me importava muito...

(andy warhol)

sexta-feira, março 20

eu escrevi um poema triste

eu escrevi um poema triste
e belo, apenas da sua tristeza.
não vem de ti essa tristeza
mas das mudanças do Tempo,
que ora nos traz esperanças
ora nos dá incerteza...
nem importa, ao velho Tempo,
que sejas fiel ou infiel...
eu fico, junto à correnteza,
olhando as horas tão breves...
e das cartas que me escreves
faço barcos de papel!

(mario quintana)

quarta-feira, março 4

era uma noite quente. o lugar também era quente, as pessoas, as bebidas. eu continuava fria e azul acompanhada de sua ausente presença interminável.
partimos dali para o breu, onde tudo o que enxergava era o que minha imaginação produzia. não produzida era sua respiração que a cada minuto mais próxima se misturava com a minha. a sensação de duas bocas entreabertas e nada mais a ser dito.
pela primeira vez senti o amor surgindo. mais perto, tão perto... dentro de mim. manifestando-se no disparar do meu coração. força nova, cheia de vida e esperança. pela primeira vez. e tantas depois ele disparou de súbito. com você por perto, tão perto... dentro de mim.

sexta-feira, fevereiro 27

(goeldi)
voltando a caminhar, dei meu primeiro passo. a rua continua escura e o excessivo silêncio chega a ser ensurdecedor. o som mais alto que ouço são as batidas descompassadas de meu coração. e a cada uma, meu medo diminui e minha segurança aumenta, simultaneamente. segurança esta que me faz andar, mesmo sem saber o que me espera no final. agora já dou passos mais velozes, meus olhos cerrados me guiam. minha cabeça e meu corpo, em perfeita sintonia, não lembram mais do que passou. só pensam nos meus passos nessa rua sombria, o resto já não importa. começo a correr, disparada, e de repente uma luz se acende, uma única luz que ilumina toda a cidade...

domingo, fevereiro 15

domingo, janeiro 18

os degraus

não desças os degraus do sonho
para não despertar os monstros.
não subas aos sótãos - onde
os deuses, por trás das suas máscaras,
ocultam o próprio enigma.
não desças, não subas, fica.
o mistério está é na tua vida!
e é um sonho louco este nosso mundo...

(mario quintana)

segunda-feira, janeiro 12

domingo, janeiro 4

este quarto...

este quarto de enfermo, tão deserto
de tudo, pois nem livros eu já leio
e a própria vida eu a deixei no meio
como um romance que ficasse aberto...

que me importa este quarto, em que desperto
como se despertasse em quarto alheio?
eu olho é o céu! imensamente perto,
o céu que me descansa como um seio.

pois só o céu é que está perto, sim,
tão perto e tão amigo que parece
um grande olhar azul pousado em mim.

a morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

(mário quintana)